Porque viver, sobrevivendo, é uma questão de simplicidade...
Quinta-feira, 5 de Janeiro de 2006
...

images[3].jpg Andei pelo jardim até tarde, com os cães correndo atrás de mim, caminho acima, caminho abaixo, sentindo a noite a escorrer por cada espaço.


Infelizmente a lua estava pequena, tipo unha mal roída. Tinha sabido bem um luar de orelha a orelha, mas não se pode ter tudo…


Olhei para lá da sebe, onde fica a casinha do Ti Isidoro.


O Ti Isidoro era o meu jardineiro há 2 anos. Já com muita idade, pouco fazia, mas o que fazia, era com gosto.


Gostava principalmente de ir às 4 da manhã para o pé da janela do meu quarto cortar as sebes, fazendo imenso barulho com a tesoura, nos dias que se adivinhavam de muito calor.


Não adiantava dizer-lhe que tinhamos uma máquina que o fazia em dois segundos.


 Nã…


Toc, toc, toc… não havia nada melhor do que a enorme tesoura movida por mãos hábeis.


 De vez em quando, semeava umas nabiças num canto e uns pézinhos de salsa, de que eu me esquecia sempre, porque era mais fácil trazer do hipermercado.


 Quando me encontrava, normalmente toda ramelosa e de pijama a estender a roupa, ía a correr apanhar uma alface do tamanho de uma couve, que acabava por não ser comida por ser tão dura, e deixava-a junto do estendal.


 Confesso que me irritava às vezes de o ver andar pelo jardim como se fosse uma sombra, saltando de repente ao caminho.


Não tinha horários, nem método de trabalho, e fazia as coisas à sua maneira, não aceitando conselhos, quanto mais ordens…


De manhã bem cedo quando saía de casa com os miúdos, lá o víamos a subir a rua, vindo de uma ou outra horta das redondezas, de enxada ao ombro, para ganhar mais uns tostões.


O Ti Isidoro morreu.


Foi ao banco para levantar a pensão e, atravessando na passadeira, passou-lhe um jeep por cima.


Foi para o hospital, esteve uns dias de coma e recuperou.


Apenas para que os médicos descobrissem que estava cheio de diabetes e outros problemas da idade, que ele, por nunca ir ao médico, desconhecia.


 Portanto, e apesar de lhe ter passado um jeep por cima, o Ti Isidoro morreu de diabetes.


 Muita paz à sua alma!



publicado por Fernanda às 09:17
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8 comentários:
De Anónimo a 6 de Janeiro de 2006 às 08:17
Coitado do velhote.
Que a sua alma descanse em paz.
Gostei da tua história. Mas a tua horta deve estar um caos com a falta dele...
Beijinhos.Nilson
(http://nimbypolis.blogspot.com)
(mailto:nimby33@hotmail.com)


De Anónimo a 5 de Janeiro de 2006 às 20:28
A vida às vezes é cheia de ironias... e de sarcarmos também...Aragana
</a>
(mailto:aragana@sapo.pt)


De Anónimo a 5 de Janeiro de 2006 às 20:27
É verdadeiramente horrível, mas é a lei da vida. Todos vamos morrer mais xeco ou mais tarde. Esperemos é ter uma vida cheia de coisas boas, antes de acontecer! Como ele...
Bjo.
http://sunshine.blogs.sapo.pt/Sílvia
(http://sunshine.blogs.sapo.pt/)
(mailto:silviaspt79@clix.pt)


De Anónimo a 5 de Janeiro de 2006 às 15:24
Viva, linda! Adorei a tua partilha... como tantas outras - adoro ler-te! Pintas o mundo com as cores de uma criança com a nostalgia de um passado que já foi, nunca foi ou quem sabe ainda virá! Adoro o sabor dos quadros mentais que surgem a cada frase lida! É um quadro lindo, com cheiro de outros tempos, como um sol lindo numa manhã fresca, leve, perfumada, bem luminosa, em que o tempo corre a conta-gotas! Na minha imagem, pelo menos! Lindo! BIgada pela partilha! Quando ao Ti Isidoro... sábias mãos maduras, por vezes talvez irritantes, da forma como sabe ser e fazer! Quem sabe a razão não tenha sido a diabetes, mas o facto desta ter sido descoberta?! Mas aí a pintura já é outra... sou só eu a dIvagar!... bjs doces de Primavera florida! :)Sofia
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De Anónimo a 5 de Janeiro de 2006 às 15:22
Que o Ti isidoro descanse em paz e que não andes mais jeeps a passar por cima dos nossos idosos e crianças. A diabetes estava lá mas conviviam o pior foi o jeep que a acordou e o Ti Isidoro pelos vistos não resistiu.grilinha
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(mailto:grilinha@gmail.com)


De Anónimo a 5 de Janeiro de 2006 às 12:15
Sinto muito pela sua morte... É muito triste perder aquelas pessoas a quem nos habituamos... Um vazio imenso... :( **BeijoKriz_The_Wiz
(http://luarsemestrelas.blogs.sapo.pt)
(mailto:krizthewiz@gmail.com)


De Anónimo a 5 de Janeiro de 2006 às 12:15
paz a sua alma!lyra
(http://abarcadelyra.logspot.com)
(mailto:notasdelyra@gmail.com)


De Anónimo a 5 de Janeiro de 2006 às 11:48
Esta é uma história verdadeira?!?Lurdes
</a>
(mailto:maria_lurdes_martins@yahoo.com.br)


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