Porque viver, sobrevivendo, é uma questão de simplicidade...
Quinta-feira, 11 de Maio de 2006
...

Há por vezes momentos ou acontecimentos catalisadores.

Que nos lançam em balanços e flash-backs de uma vida inteira.

Num segundo, ou pouco mais, passa tudo pela mente e, pior, pelo coração.

Mas não os bons momentos.

Esses devem estar guardados noutro departamento qualquer mais inacessível ou de password mais complicada para uma memória cansada.

 

São os maus momentos que vulcanizam.

Implodem.

Trazendo cada amargo de boca, cada vazio de olhar, cada maquinismo de acção.

 

Passa a vidinha toda pela frente.

Como se estivéssemos à porta do outro lado.

 

O balanço é sempre trágico.

Porque nos permitimos sentir assim.

Pegamos até nas verdadeiras tragédias dos outros, e por auto comiseração, choramos todas as nossas.

Verdadeiras ou exageradas.

 

Hoje, doem-me todas as minhas frustrações.

Todas as culpas.

Tudo o que deixei por fazer.

 

O que é isso perante uma verdadeira tragédia como perder um filho?

 

NADA!

 

E então, sinto-me repugnante na minha pequenez de espírito.

Na minha vidinha medíocre.

Nos meus sonhos estapafúrdios.

 

Devia estar de joelhos a dar graças.

 

E estou aqui, a pegar numa dor que não conheço, para justificar as que me atormentam.

 

Para as deixar tomar conta de mim.

Para poder permitir sentir-me pequena e ter direito a pedir colo.

E a recusa-lo.

 

Porque já sou grande.

 

Já não tenho idade para estas coisas.

 

Tenho inveja daqueles que vivem mansamente toda uma existência.

Sem grandes sobressaltos interiores.

Sem duvidas existenciais ou filosóficas.

 

Tenho muita inveja.

 

É só mais uma constatação de um defeito como outro qualquer.

 

Porque hoje, queria ser qualquer um, menos eu.

 

Com excepção dos pais da Laurinha, e de todos os pais que perdem filhos.

 

Porque essa é a dor maior.

 

Não existe dor maior.

 

E aqui assumo o meu pânico.

O meu terror.

 

De um dia a ter de sentir.


sinto-me:

publicado por Fernanda às 13:41
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7 comentários:
De indeciso2 a 11 de Maio de 2006 às 14:15
como estou contigo, Fernanda (menos na ineja) mas qu fazer se só sabemos sentir a dor dos outros no pavor da nossa dor - masacredita que o fazemos plenos de amor! muito tristes as histórias que aqui deixaste. A mamãaaa ...manda-lhe um abraço.


De Lover a 11 de Maio de 2006 às 15:30
Minha querida! Elogio-te mais uma vez, devido ao ser humano fantástico que transmites nas tuas palavras. Acredita que gostei de ler, porque revi nas tuas palavras muitos dos meus sentimentos. Quantas vezes não apetece deixar de pensar e arrumar filosofias que nos afectam a alma, num qualquer armário a cheirar a molfo onde possam morrer de tédio? Infelizmente, há quem consiga e, sou sincero, invejo quem consegue. Afinal, passa pela vida não entendo os problemas. Nós, por vezes, vivemos demasiado e está aí o erro ou virtude. Infelizmente dói imaginar perder um filho, porque a lei da vida não é essa. Todos se imaginam falecendo um dia e deixando em vida os seus filhos queridos, nunca se pensa em ver desaparecer os nossos rebentos. Não sou pai, talvez nunca o seja, infelizmente, mas tu que és mãe entendes essa dor, por mais distante que ela te deva ser. Um beijo grande e força para os pais da menina e para ti desejos de um dia mais bem disposto.


De Aragana a 11 de Maio de 2006 às 15:38
Nenhum pai ou mãe deveria passar pela morte de um filho.
Neste casos a vida transgride a lei e deveria de ser multada...

Um beijo para ti. Não te deixes ir abaixo, as transformações no teu corpo, ainda que para melhor podem causar-te uma depressão.
Vai com calma.


De os nosso momentos a 12 de Maio de 2006 às 12:44
olá......sou nova nestas andanças,se bem que pelo que tenho lido acho que com a amizade que tenho visto entre todas vós acho que devia já vos ter visitado antes. Parabéns parece-me uma excelente pessoa,o passado um dia ganha asas e desaparece


De Karura a 12 de Maio de 2006 às 19:24
querida fernandita, nem sei o que te diga... quando fui eu que perdi a minha mãe, senti que o mundo caia em mim... mas depois com o passar do tempo, tudo passou, e quando familiares de amigos faleciam, não sei porque, mas nada senti... nao é que faltasse a ligação, mas... fiquei triste mas nao senti dentro da minha alma. amiga, tem calma, é só apenas um pouco de nervosismo... quem me dera poder dizer algo melhor! beijo**


De aflores a 12 de Maio de 2006 às 22:39
Más notícias não, por favor. Respira fundo...1....2...3...bj e votos de excelente fim de semana.


De Gaybriel a 13 de Maio de 2006 às 10:36
Existirá dor maior? Não sei, nem quero passar por tal! Pelo que posso ver no caso do meu sobrinho que tanto custou dizer Adeus, posso ver que a mãe nestes ultimos dois anos não tem mais sido a mesma, ela sim sentiu a dor maior...ela perdeu um filho! Não desejo esse mal a ninguem, a lei da vida dizia-me que os mais velhos partiam primeiro, afinal distorceram a realidade! A todos os pais, atodos os irmãos que vêem partir um ente querido deixo um abraço e força para que o desespero seja ultrapassado bem rápido! Bj grande! Faz tempo que não passava aki, continua igual a si propria!Bom fim de semana!


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