Porque viver, sobrevivendo, é uma questão de simplicidade...
Segunda-feira, 15 de Novembro de 2004
Ao Mar

Lembras-te do tempo em que passávamos horas perdidas a conversar?


 Fecho os olhos e sinto o teu cheiro, ao cair da tarde, quando as pessoas fugiam, e as gaivotas apareciam, barulhentas e brincalhonas, para tomarem conta da praia…


Lá mais ao longe, os barcos dos pescadores chegavam da faina, arrastando e puxando redes cheias de peixe ainda a saltitar. E eu ficava ali à tua frente, a tiritar de frio, enrolada na toalha molhada de mil mergulhos dados, com o corpo a pingar, as mãos cheias de areia…


 Tantas páginas te escrevi, para guardar na memória do papel as nossas confidencias…


Os meus padrinhos não percebiam porque gostava eu tanto de ficar na praia até tarde, ao frio, quando toda a gente se vinha embora.


Mas era no silencio-de-gente que eu te podia ouvir. Muitas vezes me ralhavas, de mansinho, em palavras de pai que eu não conhecia. E quando eu chorava, sentada à tua frente com mil perguntas, mandavas as ondas mais suaves fazerem-me festas nos pés, até as minhas lágrimas secarem com o teu sal.


 Outras vezes, estavas tu tão alterado, que eu me sentia pequenina demais para te questionar.


 Aí, ralhavam comigo os banheiros, que queriam ir descansados para casa, e me expulsavam da praia sem rodeios.


Sentava-me no paredão, a olhar-te revolto e surdo, ao mesmo tempo que me gritavas “deixa-me em paz!!”.


A última vez que te vi assim, na Nazaré, jurei-te que nunca mais voltava. E cumpri.


Quando te reencontrei em Peniche, senti-te distante.


Não me deves ter reconhecido, estava mais velha, já adolescente, e as perguntas que te fazia tinham perdido a inocência de criança. Perguntei-me da vida e da morte, e apenas me falavas de eternidade, do ciclo renovável da existência.


E eu fingia que não te via, dançando nas dunas quentes de areia, a salvo de olhares indiscretos e olhando-te de soslaio, enquanto o meu coração perguntava baixinho quando te sentiria meu de novo. Nunca nessas ondas me acolheste de bom grado.


Voltei a cruzar-me contigo no Cabo Carvoeiro.


 Tu, na tua plena imensidão e bravura, agreste com as rochas e comigo, que estava de novo a importunar-te. Desta vez tiveste que me ouvir.


Cantei-te canções ao sabor do vento, voltei a escrever-te enquanto te debatias no fundo dos penhascos. Fiz da minha presença sobre ti uma constante de todos os dias dessas férias de Verão.


Ano após ano, ansiava chegar ao teu lado, para depois das boas vindas, recomeçares de novo a dizer-me que nada tinhas para mim, que as muletas que procurava nos outros, teria de as encontrar dentro de mim. Respondia-te que não queria muletas, precisava apenas de amor. Mas tu tinhas um planeta inteiro para amar…


No último Verão abandonei-te com rancor, no ano de todas as desistências.


 Não voltei a ver-te.


 As praias que daí se seguiram, nada tiveram a ver contigo. Encontrei-te mar conformado, cheio de gente que não te escutava, fiz-me uma delas também, e mesmo que deixe a tarde cair, nunca mais me falaste ao ouvido.


Sei que cresci. Talvez não me reconheças.


Mas tenho esperança de, um dia, encontrar uma praia desconhecida, onde nunca nos cruzámos. E que aí, de repente e sem aviso, tu voltes a falar só para mim. Que me digas que me amas, que sentiste a minha falta, que perguntaste por mim aos ventos do sul e às gaivotas que passam.


E sorrindo, com os meus filhos pela mão, eu te possa dizer que segui o teu conselho.


Que me fiz Mulher, pus de lado fantasmas e desamores, e gerei no ventre a alegria de dar vida, na dávida suprema do Amor.


Tenho esperança que então me sorrias, me abraces e me deixes chorar de alivio, fazendo do teu sal o caminho do meu consolo.


 Até lá, podes ter noticias minhas. Basta perguntares com jeitinho, a quem se deixar ficar aos teus pés depois do sol se ir, se sabe como estou e se demoro muito a voltar…



publicado por Fernanda às 15:43
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18 comentários:
De Anónimo a 17 de Novembro de 2004 às 20:17
li vários temas e gostei bastante deste blog, vou voltar mais x´s...eddie
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(mailto:h.barradas@sapo.pt)


De Anónimo a 16 de Novembro de 2004 às 22:15
Lindíssimo... fiquei muito tocada... E acho que voltarás um dia, quando puderes demonstrar toda a tua força. Beijo grande.Carla
(http://papoilasdoces.blogs.sapo.pt)
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De Anónimo a 16 de Novembro de 2004 às 09:59
que lindo .........um beijo com cheiro de maresia........Maria
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(mailto:Maria40@yahoo.com)


De Anónimo a 16 de Novembro de 2004 às 09:49
Hummmm...os segredos que o mar esconde. è incrível como me consegues embrenhar na tua escrita. ADOREI!inconfidente
(http://inconfidencias.blogs.sapo.pt)
(mailto:inconfidencias@sapo.pt)


De Anónimo a 16 de Novembro de 2004 às 08:40
Soube bem este parar junto ao mar. Adorei aqui ficar e sentir. Referiste locais que conheço bem e que ainda hoje gosto de visitar. Será que já nos cruzamos um dia? ;)aflores
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De Anónimo a 16 de Novembro de 2004 às 08:02
O mar é uma tentação... é uma perdição. Além disso tem o dom de quanto mais irado está... mais nos acalmar. Curioso não é?pedevento
(http://pedevento.blogs.sapo.pt)
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De Anónimo a 16 de Novembro de 2004 às 00:49
Esta Mulher é um espanto!!! apetece-me e vou dizer o que senti enquanto estava aler "adoro-te!
andei pela minha infância e percorri os anos nunca mais da adolescência quando se é mulher e inda se é criança...assim em meia dúzia de linhas a minha vida a passar fulgurante, viva, linda! e depois na queres que diga adoro-te Fernanda?!:) (rss)seila
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De Anónimo a 15 de Novembro de 2004 às 23:50
Lindo...herzog
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De Anónimo a 15 de Novembro de 2004 às 23:29
Palavras para quê? Prefiro manter-me em silêncio... Às vezes o silêncio é mais eloquente que quaisquer palavras! :`(Carlota
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(mailto:carla_ruby@sapo.pt)


De Anónimo a 15 de Novembro de 2004 às 23:08
E eu que falo com ele tantas vezes... engraçado, depois que o sinto tudo fica mais claro em mim, tudo faz sentido outra vez.
Um beijo feito de marGilda
(http://tardedemais.blogspot.com)
(mailto:gseomara@hotmail.com)


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