Porque viver, sobrevivendo, é uma questão de simplicidade...
Terça-feira, 30 de Novembro de 2004
Voar?

Passou por mim uma gaivota atrevida,


Perdida do mar, à procura de outro sal.


 Sentei-me quieta para não a assustar, como se ela se importasse com quem a olhava!


Em cada rodopio de encontro ao céu, dava mil voltas sempre em círculo e voltava sempre ao mesmo lugar.


 E eu ali a olhá-la. Esbocei um sorriso e resmunguei entre dentes “grande tonta, estás tão longe da praia!”


 Levantei os olhos para lhe dizer adeus, e senti-a descer a pique como se uma asa se quebrasse. O meu coração disparou. Será que me ía cair nos braços? Mas não.


Pousou suavemente numa pedra ao meu lado e olhou-me muito séria.


Lá estou eu a imaginar coisas de novo – pensei, sacudindo a cabeça para afastar ilusões.


“Ao menos, bom dia!” – ouvi num sussurro


 Virei a cabeça para todo o lado na esperança de encontrar outro “espreita gaivotas”, mas não vi ninguém.


 “Não te sabia mal educada, menina!” e levei uma bicada no ombro.


“Mas tu falas?!!”


 “Olha, outra que pensa que só os humanos é que sabem tagarelar!”


 “Mas como é possível eu perceber o que grasnas?”


 “Consegues ouvir com o coração e não só com os ouvidos…”


“Andas perdida por aqui, não é?”


 “Quem tem asas voa para onde quer. Não sou tão perdida como pareço…”


“Mas como vieste parar tão longe do mar?”


 “Tenho uma missão a cumprir, e achei melhor despachar-me antes que faças asneiras…O mar pode esperar.”


 “Não me digas que te deste a todo este trabalho por minha causa!”


 “Já ouviste falar de Maomé? Não apareces há tanto tempo, que tive de pôr penas a caminho para te falar”


 “Sinto-me lisonjeada…”


“Não te armes em pavão, que o caso não é para elogios!”


“Já vi que estás zangada comigo.. Lamento, não és a única! “


 “Não te armes em coitadinha que te conheço bem! Estou apenas cansada, fartei-me de voar para te apanhar a tempo”


“Então diz lá o que me queres…”


“Ouvi dizer que querias trocar as tuas asas por um par de pneus em bom estado. É verdade tamanho disparate?”


“Gaita! Até tu navegas na net?”


 “Diz-me só se é verdade…”


“É verdade, sim senhora, eu raramente minto!”


 “Então deixa-me dizer-te que um par de pneus compram-se em qualquer altura, em qualquer lugar! Mas umas asas, feitas por medida e que assentam maravilhosamente, só são dadas uma vez na vida! Portanto, minha menina, mesmo que não as uses, toca a mantê-las em teu poder. Ainda podem fazer-te falta!”


 E dito isto, levantou voo enrolada no vento, e desapareceu antes que eu pudesse ripostar.


 Fiquei ali parada. Com uma sensação estranha de que estas coisas não acontecem.


Mas pelo menos fiquei a saber, de uma vez por todas, que tenho mesmo asas. Só me falta aprender a voar…



publicado por Fernanda às 11:57
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21 comentários:
De Anónimo a 2 de Dezembro de 2004 às 19:11
Terá sido esta que te aconselhou: http://shw.fotopages.com/2128806.html ?
Segue o seu conselho... voa...
Bjs
Até!
Herzog
(http://rop88029.fotopages.com)
(mailto:rop88029@mail.telepac.pt)


De Anónimo a 2 de Dezembro de 2004 às 04:06
tudo acontece a almas como a tua.......maria
</a>
(mailto:maria40@yahoo.com)


De Anónimo a 1 de Dezembro de 2004 às 21:29
Gostei da ironia do texto. Muito suave.. como uma gaivota. Porque será que temos todos esse sonho de voar? Um beijo para ti :-)LolaViola
(http://vidasdeconchitaepaco.blogspot.com/)
(mailto:violeta_2002@mail.pt)


De Anónimo a 1 de Dezembro de 2004 às 15:52
Cada vez gosto mais de ti! ai como eu vi as minhas asas (as minhas também sim!) tantas vezes ali desprezadas! Um abraço daqueles entre dois EUs, Fernanda! (e, claro e desnecessário...o texto é lindo lindo lindo de morrer!!!)seila
(http://intervalos.blogspot.com)
(mailto:feet1@sapo.pt)


De Anónimo a 1 de Dezembro de 2004 às 14:53
A voar todos vamos aprendendo durante a vida... Como já disseram... o difícil é mesmo aprender a aterrar... As minhas aterragens costumam ser muito bruscas... Mas vou aprendendo com todas... beijux grandes**HeartlessArchAngel
(http://pesadelo.blogs.sapo.pt)
(mailto:xaninha@hotmail.com)


De Anónimo a 1 de Dezembro de 2004 às 01:16
Lindíssimo, Fernanda :) Voa com o teu espírito, a tua alma... e ganharás a velocidade que quiseres. Beijo grande, menina de asas bonitas :)Carla
(http://papoilasdoces.blogs.sapo.pt)
(mailto:cferreirapedro@sapo.pt)


De Anónimo a 1 de Dezembro de 2004 às 00:21
mas n ha maneira de aprender a voar... experimenta deixar o vento e as emoçoes te levaremspeak_easy
(http://postas.blogs.sapo.pt)
(mailto:hmeira@hotmail.com)


De Anónimo a 1 de Dezembro de 2004 às 00:05
As gaivotas sempre foram ariscas...e gaivotas em terra é sinal de tempestade, não é?pedevento
(http://pedevento.blogs.sapo.pt)
(mailto:mardapalha@sapo.pt)


De Anónimo a 30 de Novembro de 2004 às 23:40
Quando era piqueno... contavam-me essa estória... mas sobre a Joaninha... Essa tem asas... Da Fernandinha... não sabia... Então... era assim...
"Joaninha avoa avoa... ku teu pai foi a Lisboa... buscar um carro de pão... pra ti e pró João!...casepagam
(http://casepagam.blogs.sapo.pt)
(mailto:a.resende@mail.pt)


De Anónimo a 30 de Novembro de 2004 às 19:37
Ai, foi preciso a gaivota dizer-te que tinhas asas? Está a ficar obtusa, a menina? Tens asas e sabes voar, só não sei se controlas o voo! :) Espero que sim. Beijo e bom feriado.lique
(http://mulher50a60.weblog.com.pt)
(mailto:lique2@sapo.pt)


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