Porque viver, sobrevivendo, é uma questão de simplicidade...
Quinta-feira, 17 de Março de 2005
Sem Raízes - 1

I - Progenitores


 Existem certos aspectos da vida que nos marcam para sempre. Muitos. Cravados a ferro e fogo nas memórias difusas que incomodam ou dão esperança à medida que vamos crescendo.


 A versão do “outro lado” das condições e desenvolvimento do meu nascimento só me foram reveladas aos 30 anos.


 Passei por isso toda uma vida a tecer conjecturas e a sonhar que era uma princesa raptada por gente má, o que me roubou ao meu grandioso destino.


Sempre soube que era adoptada.


 A minha mãe Belmira (de criação) sempre teve o cuidado de me dizer que a minha mãe Georgete (sua sobrinha directa), me tinha abandonado, que era uma desavergonhada que engravidou aos 16 anos, e nem sabia quem era o meu pai.


E que, por circunstâncias da vida, me tinham posto nos seus braços com 9 meses de vida, para que ela me criasse e evitasse que eu morresse de fome e de pancada.


Quando fiz 30 anos, consegui “obrigar” a minha mãe natural a contar-me como tinha tudo acontecido.


 Portanto, a primeira versão que conto é a dela.


“Nunca mais hei-de esquecer a primeira vez que vi o teu pai. Alto, louro, de olhar claro e intenso, era bem diferente do resto dos homens que andavam em Rio Maior a amanhar o campo. Vinha todos os anos à região, com o tractor, e daquela vez consegui que notasse a minha presença.


 Eu era franzina, apesar dos meus já 15 anos e de ter a mania que era uma mulher. Sei agora que era apenas uma menina que nunca pôde brincar com bonecas.


Palavra puxa palavra, olhar choca com olhar, e acabámos enrolados num tomatal.


Confesso-te que não sabia muito bem o que estava a acontecer. Sentia apenas que sabia bem, agora reconheço que, para 1ª vez, a coisa não correu mal.


Enquanto durou aquela Primavera, foram muitos os nossos encontros e acabámos por nos apaixonar.


Quando a jornada daquele ano terminou, ele chamou-me com ar sério e disse-me:


- Geta, já não sou uma criança como tu és ainda, embora não o queiras aceitar. A diferença de idades entre nós é muita, mas estou verdadeiramente apaixonado por ti. É contigo que eu quero viver o resto dos meus dias. Não te disse ainda, mas há alguns anos que vivo com uma mulher de quem tenho 4 filhos. Vou agora falar com ela, terminar a nossa relação, mas vou garantir sempre o sustento dos meus filhos, isso tu tens de aceitar. Peço-te que esperes por mim, voltarei com a minha situação clarificada, para podermos casar e viver felizes -


 A notícia apanhou-me desprevenida. Não sabia se havia de chorar e bater-lhe por não me ter dito que tinha mulher e filhos, ou se pulava de contente por aquele homem lindo e maravilhoso estar a dizer que me amava e que queria casar comigo.


Separámo-nos nesse dia com a promessa mútua de nos voltarmos a encontrar quando ele voltasse à minha terra, o que seria o mais cedo possível.


Aquela separação, embora pontual, deixou-me um aperto no peito.


 Há medida que o via afastar, as lágrimas corriam-me no rosto, e eu tentava a custo contê-las, repetindo para mim própria que ele ía voltar!


 Quando cheguei a casa, a minha mãe, tua avó Irene, percebeu que eu não estava bem.


Fiquei surpreendida pela genuinidade da preocupação que o seu rosto denotava.


Afinal, a minha mãe não me ligava importância nenhuma, a não ser para me puxar as orelhas quando eu não tomava bem conta dos meus irmãos.


Respondi-lhe num fio de voz que o Zé tinha ido embora. Não valia a pena esconder, porque toda a aldeia falava do caso, e a minha mãe decerto já tinha ouvido zuns-zuns.


 Se negasse ou tentasse disfarçar, ainda levava um bom par de estalos.


 Por isso contei tudo. O que tinha acontecido, que gostava dele, e que íamos casar.


A tua avó mandou uma gargalhada sarcástica.


 - És mesmo parva, fedelha! Alguma vez um homem daqueles quer mais alguma coisa contigo do que te saltar para cima sempre que aqui estiver a trabalhar!


Com aquela frase me fiquei. Secaram-me as lágrimas, e finquei a esperança de que o amor que sentia era correspondido na sua plenitude.


Sim ,ía esperar.


 Sem saber porquê, nas semanas que se seguiram, a minha barriga começou a crescer.


 Não podes esquecer que na época a informação era nula, não era como agora que os miúdos sabem tudo, e eu não sabia mesmo o que estava a acontecer com o meu corpo.


As risadas sardónicas da minha mãe continuavam pelos cantos, à medida que eu vomitava e me sentia mal, e foi a D. Teresa da mercearia que me disse, depois de lhe vomitar aos pés – ai que a cachopa tá prenha!


Voltei para casa ruborizada, sem trazer os feijões que tinha ido buscar.


Bati com a porta ao entrar e atirei-me para a cama lavada em lágrimas.


- Então, o que foi agora? – O tom de voz da minha mãe era ameaçador


- Ai mãe, a D. Teresa diz que eu estou prenha. Como isso é possível? Eu não mandei vir nenhum filho!!!


 - És mesmo estúpida! Então pensavas que podias andar a fornicar por esses campos fora, sem sofreres as consequências???


 - Ó mãe, não pode ser! Eu não sabia! Porque não me avisaste?


- Já tens bem idade para cuidares de ti e ele também. Agora, arranja-te que eu não estou para sustentar bastardos!


 E dito isto, saiu, deixando um rasto de desamparo no ar.


Os dias seguintes foram um autêntico pesadelo. Sentia-me confusa e só.


Não tinha qualquer empatia pelo ser que estava a crescer dentro de mim. Sentia-o como um intruso. Como um entrave à minha felicidade. Como iria reagir o Zé quando lhe dissesse que estava grávida? Ele já tinha 4 filhos, e a vida não era nada fácil. Provavelmente deixava-me.


Fui ter com a Ti Carolina, velhota famosa por resolver estas coisas com as suas beberragens de ervas. Deu-me um chá para beber durante 3 dias, que paguei trabalhando para ela de sol a sol durante muitos mais.


 A mistela tinha um sabor tão horrível, que eu vomitava ainda mais, sempre que a bebia. No fim do 3º dia, não consegui sair da cama, tão fortes eram as dores de barriga.


 Barriga que continuava a crescer a olhos vistos.


 Não me lembro quanto tempo passou mais. Estava resignada. Levava a minha vida do dia-a-dia como se fosse um autómato. Estafava-me o máximo que podia, com esperança de que o meu corpo não aguentasse, e expulsasse o feto.


Cheguei a atirar-me de uma escada abaixo para ver se resultava. Mas nada adiantou. Além de um cansaço brutal e muitas nódoas negras, nada mais consegui, a não ser continuar a ver a minha barriga a crescer.


 Fui alvo de muita chacota.


Pelos caminhos da aldeia, já noite, quando regressava a casa, os homens à porta da taberna gritavam-me


- Ó jeitosa, quando desovares, quero ser eu a seguir!


Mantinha-me longe da tentação de me matar, a esperança que, no fundo, sentia.


Esperança de que o teu pai voltasse para mim. Que acolhesse de braços abertos a ideia de termos um filho.


 Sabia que o que tinha acontecido entre nós não era apenas fornicar, como dizia a minha mãe.


Podia ser muito nova e não perceber nada dos factos da vida, mas sentia que existia amor entre nós. Algo mais para além da pele.


Um dia, quase à noitinha, bateram à porta.


 Com força. Com determinação.


Dei um salto da cadeira, enquanto o meu coração disparava.


Era ele, só podia ser ele!


 Dirigi-me à porta, tentando compor o cabelo desajeitadamente.


 Pus um sorriso rasgado no rosto, enquanto dentro de mim, só ecoava um


- Eu sabia….. eu sabia…. Eu sabia…. Ele voltou para me buscar!


E abri a porta.


 (continua)



publicado por Fernanda às 08:50
link do post | comentar | favorito
|

23 comentários:
De Anónimo a 21 de Março de 2005 às 12:13
Parabéns... pela forma magnífica como escreves e pela coragem de partilhares esta história igual a tantas outras...
Nem imaginas o que senti ao lê-la, pois eu sou um dos muitos casos que engrossam a taxa de gravidezes precoces nos Açores. Fui mãe aos 17 anos e ainda hoje é terrível para uma jovem assumir uma gravidez só...!
Beijoslurdes
(http://oanalfabetopolitico.blogs.sapo)
(mailto:lurdesbranco@sapo.pt)


De Anónimo a 18 de Março de 2005 às 22:25
sou muito curiosa...quero ler mais!*Giraflor
(http://europemaphaldas.blogs.sapo.pt)
(mailto:mafalda_flores@hptmail.com)


De Anónimo a 18 de Março de 2005 às 11:15
Fernanda, tu nunca mais digas q n sabes escrever, ou q n tens dons igualáveis aos de qqer um dos q mencionaste! Minha amiga, seja a inspiração da verdade ou simplesmente o fruto da emoção, o certo é q o teu texto está magnífico e excepcionalmente bem escrito! E olha q que o q acabo de dizer foi dito com algum profissionalismo e n apenas porque gosto de ti!

É ansiosa que espero pelo resto!

Beijinhocris
(http://chatalinda.blogs.sapo.pt/)
(mailto:chatalinda2@hotmail.com)


De Anónimo a 18 de Março de 2005 às 10:55
E aposto que não era ele...Carlos tavares
(http://o-microbio.blogspot.com)
(mailto:carlos.roquegest@mail.telepac.pt)


De Anónimo a 18 de Março de 2005 às 10:18
são raizes que deram em algo muito belo e simpatico... tu. mal posso esperar pelo final da historia, mas fica sabendo que a tua mae foi e é uma lutadora nata... pk ultrapassou, a muito custo, muitos tabus da epoca em k nasceste... bjs********Karura
(http://blackpenguin.blogs.sapo.pt)
(mailto:karura@iol.pt)


De Anónimo a 18 de Março de 2005 às 09:45
Não tenho dúvidas que tudo isto, fez de ti UMA GRANDE MULHER! Nem preciso que contes mais, mas vou continuar a passar por aqui, sempre:)aflores
(http://omeublog2004.blogs.sapo.pt)
(mailto:albertoflores1957@sapo.pt)


De Anónimo a 18 de Março de 2005 às 02:03
Obrigadinha pela visita ao meu blog. Vim até aqui espreitar e fiquei surpreendido. Ainda dizia eu que valia mais uma imagem que mil palavras... com palavras assim, não são assim tão necessárias as imagens. Parabéns pelo teu blog, fico à espera do resto, porque a partir de hoje serei leitor atento do teu blog (e desculpa-me por não saber da sua existência). Até breve!FR
(http://fotosfr.blogs.sapo.pt)
(mailto:proart@net.sapo.pt)


De Anónimo a 18 de Março de 2005 às 01:28
Uma raíz muito profunda e rica, fico presa ao encadear da verdade, às palavras e à vontade de descobrir a vida... dedentrodemim.blogspot.comsecret
(http://dedentrodemim.blogspot.com)
(mailto:secretblog@hotmail.com)


De Anónimo a 17 de Março de 2005 às 21:49
Estou calmamente esperando a continuação. Bjs grandesmulhergorducha
(http://diariodemulher.blogspot.com/)
(mailto:annp@sapo.pt)


De Anónimo a 17 de Março de 2005 às 17:59
E eis-me aqui ultrapassado no valor da prosa e na força do sentimento. Ainda bemalexandre
(http://ascartasperdidas.blogspot.com)
(mailto:abentodesousa@hotmail.com)


Comentar post

mais sobre mim
pesquisar
 
Agosto 2010
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13
14

15
16
17
18
19
20
21

22
23
26
27
28

29
30
31


posts recentes

A ESTRELA !!!

Mas nem tudo são desgraça...

Pois..

Saudade...

ESTUPIDAAAAAAAA!!!!

20 anos

Beleza Pura

De Centauro a Sereia

ATÉ DEUS....

QUERO UM!!!!

arquivos

Agosto 2010

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Dezembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

tags

todas as tags

Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds