Porque viver, sobrevivendo, é uma questão de simplicidade...
Terça-feira, 5 de Abril de 2005
...

Toc Toc..


 Bati à porta suavemente, quase sem forças.


 QUEM É????? – gritaram do outro lado com impaciência.


“Sou eu, a Fernanda” – respondi pensando que “ego grande eu tenho”, para pensar que me iam reconhecer só pelo nome.


Ouvi passos pesados. Um arrastar de correntes. Um chiar medonho. A porta abriu-se. Mantive os olhos baixos, sem coragem.


- Grande chata tu me saíste. Vi logo que só podias ser tu.


- Desculpe vir incomodar….


- Hoje estou muito ocupada, mas sempre se arranja tempo para uma fã…


Mandou-me entrar, virando-me as costas. Não pude evitar um arrepio ao olhar o manto negro.


Sentei-me. Sempre de olhos baixos.


Ouvi o som de páginas pesadas a serem folheadas. Pelo canto do olho, fui espreitando ao meu redor. Não era nada como eu imaginava. O sol entrava por frestas imensas nas paredes. Porquê frestas e não janelas? Sentia-se pó no ar, mas era um pó brilhante, onde dançavam pequenos arco-íris.


 Cadeiras de espaldar alto surgiam aqui e ali, em companhia de mesas de pé de galo. Em cima de cada mesa, um livro aberto.


Ela fechou um desses livros. O estrondo fez-me dar um salto na cadeira.


 - Ora bem minha menina…. – virou-se para mim com os olhos em fogo – já vi que temos de ter uma conversinha…


 O seu rosto era surpreendentemente jovem. Um pouco pálido, mas sem marcas do tempo. Tentava esboçar um esgar de sorriso, mas percebi que não conseguia. Estava zangada comigo.


Não senti medo. Saía dela uma paz que me envolvia. E era isso que eu tinha vindo procurar, portanto, não me ía deixar amedrontar.


 Puxou uma cadeira e sentou-se à minha frente. Olhámo-nos um instante. Um longo instante. Com determinação, misturada com curiosidade, de parte a parte.


 - Tenho de reconhecer que és persistente, embora essa não seja uma das tuas virtudes menina.. – senti alguma doçura na sua voz, que me deu alento.


- Eu sei – respondi, enquanto a minha cabeça pensava a grande velocidade – mas gostava que me ouvisse..


 - Não preciso de te ouvir, para te perceber. Conheço-te desde o dia em que foste gerada, andei sempre por perto, mas recebi ordens para me manter longe de ti. Não percebo porque insistes em me procurar…


Começou a tamborilar os dedos no tampo da mesa. Engoli em seco… Sentia a cabeça à roda e faltavam-me os argumentos.


- A maioria dos humanos foge de mim a sete pés, e mesmo quando chega a sua hora, sou sempre mal recebida. E sempre incompreendida. Não percebem que só faço o meu papel…


- Mas não tem liberdade de movimentos? Poder de escolha?


- Raramente. Tenho sempre muito que fazer, mas em pequenos momentos de tédio, permitem-me ser criativa. Mas a decisão final nunca é minha. Há que respeitar o equilíbrio de Forças, sabes…


 - Nem me atrevo a perguntar que Forças são essas…


- Nem poderias entender todo o processo. Mas posso adiantar-te que está tudo escrito – e apontou para os livros abertos – e o que não está definido, vai surgindo com o Tempo. Eu limito-me a ler.


Soltou um suspiro profundo.


 - Devo ser a Força mais mal amada dos Universos… Algo inevitável, como uma praga…


Vi assomar o que parecia uma lágrima naquele olhar de fogo.


- Mesmo quando me aceitam , ou procuram, é sempre difícil, sabes? Há sentimentos e emoções que me estão vedados, mas às vezes fazem-me falta.


 Começaram a bater à porta. Ela agitou-se.


- Estão a chegar os convidados de hoje. Longe vão os tempos em que tinha de viajar para os procurar. Agora, limito-me a servir de porteiro…


Fez menção de se levantar, mas quedou-se no último momento.


Olhou-me de novo, mas já sem fogo no olhar..


- Olha, menina, quase me dava vontade de te fazer uma festa, mas não te posso tocar. Deixa-me dizer-te, à laia de despedida, que não será aqui que encontras a Paz que procuras. Se não a encontrares até ao nosso próximo contacto, passarás a Eternidade na mesma aflição…


 Encolhi os ombros em desalento…


- Não fiques desanimada. Há milhões como tu por esse universo fora. Mas pela tua persistência e para que não digas que sou uma ingrata, vou fazer-te um favor.


Dito isto, levantou-se e dirigiu-se para uma porta discreta de madeira, com ferragens douradas e sem puxador. Levantou a mão sem lhe tocar, e ela abriu-se.


 Espreitei curiosa. Lá dentro, uma bruma cinza brilhante era acompanhada por uma melodia suave e discreta, a que se sobrepunha o borbulhar de água vibrante. No ar, um cheiro intenso a rosas e madressilva.


 Senti um golpe de vento a empurrar-me suavemente para além da porta, enquanto a voz dela ecoava cada vez mais longe….


- Vai… Ofereço-te um banho no Rio do Esquecimento, para que se tornem mais leves as memórias que te atormentam. Cumpre o teu Destino. Gasta o teu Tempo. E orgulha-te do que és. Se nada te convencer, pensa que és dos poucos que se encontraram cara a cara com a Morte, e viveram para contar!



publicado por Fernanda às 11:48
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23 comentários:
De Anónimo a 8 de Abril de 2005 às 18:07
Gostei deste teu conto.
Parabéns pelo excelente nível da tua escrita, cada vez melhor.
O Rio do Esquecimento é o mesmo rio de que falo nos meus 2 últimos posts?
É que tu disseste «O “rio do esquecimento” ficou a badalar cá dentro»...
Conheces, de facto, a lenda do Rio Lethes?
Eu fiz um post o ano passado explicando a lenda. Se a quiseres ler eu procuro-a e digo-te em que dia foi.
Beijo e bfs.NILSON
(http://nimbypolis.blogspot.com)
(mailto:nimby33@hotmail.com)


De Anónimo a 7 de Abril de 2005 às 14:05
Amiga, com tanto que tens de bom, a começar pelos filhos lindos.....e só pensas nas coisas de más que a vida te deu? Alegra-te !inconfidente
(http://inconfidencias.blogs.sapo.pt)
(mailto:inconfidencias@sapo.pt)


De Anónimo a 7 de Abril de 2005 às 13:03
Um beijo grande pa ti Fernanda! Que este sol te traga muito boa disposição!!elsa
(http://delirios2004.blogs.sapo.pt/)
(mailto:eee@sapo.pt)


De Anónimo a 6 de Abril de 2005 às 22:44
Hoje suicidou-se um tipo que eu não conheço e que era parte contrária de um cliente da Zuca. Dividas, uma vida não resolvida, nunca falava com ninguem, guardava tudo para si. Deixou os papeis em ordem, a licença da arma em cima da secretária, a porta do escritório aberta e depois deu um tiro na cabeça.
Hoje fomos jantar fora todos os 3. Porque estamos vivos! Porque nos temos uns aos outros! Ás vezes é mesmo necessário Ve-la de frente para dar valor ao que temos. Um beijo Fernanda e obrigado pela visita.Zuco
(http://www.ciotizenzuko.blogs.sapo.pt)
(mailto:zuco40@yahoo.com)


De Anónimo a 6 de Abril de 2005 às 19:49
Não gastes o teu tempo. VIVE-O!!! Boa Amaral, é isso mesmo!! Contudo, não posso deixar de apreciar e parabenizar-te pelo texto. Beijo e ânimoCelta_e_Bera
</a>
(mailto:Celta_e_Bera@sapo.pt)


De Anónimo a 6 de Abril de 2005 às 18:46
O que é que eu posso escrever???!!! LINDO!!! BeijocasactiveStress
(http://activestresss.blogs.sapo.pt/)
(mailto:sandra_espiritosanto@hotmail.com)


De Anónimo a 6 de Abril de 2005 às 17:19
Pois é, Fernanda, não precisas ir bater a uma porta tão longe… Nem precisas de te banhar nesse tal Rio de Esquecimento, mulher!
Duvido que possas um dia estar cara a cara com a morte, pela simples razão que isso só existe na tua caixa mental. Essa coisa da morte é uma continuidade, ou um desprendimento do corpo, aquilo que ousares acreditar!...
E esse "esquecimento", só se fôr o esquecimento de quem Tu És, verdadeiramente! Aí, sim, há um esquecimento! Mas quando largares o corpo, vais-te relembrar com a maior das facilidades.
Portanto, minha amiga, para buscares a tua Paz, bate a uma porta mais atractiva, mais alegre, mais extraordinária! Bate à porta de Ti mesma! Bate à porta do teu Eu interior. A Tua Paz está exactamente aí! Está Tudo lá: a tua Paz, a tua Verdade, o teu Eu, a tua Tranquilidade!
No teu silêncio interior, nem precisas bater; tens escancarada a Luz que nunca deixaste de Ser!
Amaral
(http://amaralnascimento.blogspot.com)
(mailto:amaralnascimento@hotmail.com)


De Anónimo a 6 de Abril de 2005 às 15:58
aiaiai... isto é uma metáfora do passado, espero... não do presente, ok?? que fazes cá falta por aqui, nem penses nessas coisas de ir ter com a morte, por muito doce que ela te tenha parecido... humpf!

beijinhogata
(http://ninhodagata.weblog.com.pt)
(mailto:promao_gata@clix.pt)


De Anónimo a 6 de Abril de 2005 às 15:02
Nem tenho palavras... beijocasmulhergorducha
(http://diariodemulher.blogspot.com/)
(mailto:annp@sapo.pt)


De Anónimo a 6 de Abril de 2005 às 12:37
Como sempre, adoro a tua escrita, mas desta vez não sei se percebi o que querias transmitir, mas como sei que és uma mulher inteligente, carinhosa e atenta, tenho a certeza que posso contar com um e-mail teu a explicar-me... uma beijoca de todo o tamanho nessa bochecha ternurenta!garanho
(http://cogitando.blogs.sapo.pt)
(mailto:garanho@sapo.pt)


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