Porque viver, sobrevivendo, é uma questão de simplicidade...
Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2006
A carta que não vou mandar.

renascer.jpg Hoje foi um dia difícil. Como tantos outros, mas parece que não me consigo habituar.


 Ando a fazer um esforço para reduzir o tabaco, e pela privação (infelizmente não abstinência), estou com os nervos à flor da pele.


Não estou irritada, não. Há muito tempo que não me irrito. Não vale a pena.


Gostava de estar sentada à tua frente, quem sabe à beira de uma lareira. Sentadas no chão, misturando beatas e palavras em cadeia, como se o tempo que nos restasse não chegasse para dizer tudo o que se quer…


Mas contigo já percebi que não podem haver conversas, apenas monólogos.


Palavras sentidas que esbarram numa parede. E caem sem eco. Mas nunca gostei de ecos. Nem de sombras.


Em criança, assustava-me com a minha própria sombra. Não gostava de a ver sempre a perseguir-me, disforme, contorcionista doutros medos. Por isso me punha à torreira do sol, longe de paredes e ângulos armadilhados. Apanhava valentes constipações e fartava-me de deitar sangue do nariz…


Também tinha a mania de andar à chuva, não perdendo nenhuma poça no chão. Era uma sensação de liberdade tremenda… A rua só para mim, as janelas fechadas, a agua fresca a cair-me no rosto! E mais valentes constipações.


Agora, sempre que dou comigo a ralhar com os meus filhos para saírem da chuva ou porem um chapéu porque o sol está muito forte, sinto um aperto no coração. Fui mesmo obrigada a crescer. Não se tem alternativa.


Mantenho dos tempos de criança uma ingenuidade dolorosa, que choca violentamente com a minha faceta de Maquiavel. Chego a ser estupidamente confiante. Esperançosa até doer.


 Vejo sempre uma luz ao fundo, mesmo quando me estampo em becos sem saída. Conheces a sensação do beco sem saída?


 É possível que sim. Evito-a até não poder mais, até as evidencias me entrarem pelos olhos como ferros em brasa. E depois, sucumbo.


Faço luto, reúno cacos, miseráveis cacos de altos sonhos, expectativas e esperanças tantas vezes completa e racionalmente infundadas.


Fico um pouco ali, olhando os cacos e pensando como eram bonitas as minhas peças de porcelana. E choro. É claro que choro.


Nunca me envergonhei das minhas lágrimas, pois são talvez a manifestação mais pura do meu sentir. E depois de chorar, fico lavada. Estafada. Decido se guardo os cacos ou os deito fora. E sigo em frente.


 Mais dorida, mais só. Mas sigo. Às vezes à toa, sem rumo e seguramente sem porto de abrigo. Até voltar a ver a luz lá no fundinho de tudo.. E tudo começa de novo.


Porque, como toda a gente, aprendo com os erros, mas irei cometer outros. E outros e mais outros.


Costumava envergonhar-me dos meus erros, talvez por tantas vezes mos deitarem à cara e mos fazerem pagar, com preços sempre altos demais.


Até que um dia percebi que também tinha o direito de errar, e que só assim podia aprender. E que os erros eram meus! Ninguém tinha nada a ver com isso.


 Agora, estou-me lixando para a opinião dos outros. E se não sigo sempre o meu instinto e a minha intuição, é porque às vezes eles colidem com os outros. E continuo a não ter grande estrutura para embates.


 Sempre foi uma tortura esta minha clarividência em relação aos meus limites. Porque sempre que os ultrapasso, torno-me naquilo que abomino. Fico pedra de arremesso, sabes? Fico gelo cortante e é a mim que mais me firo. Fico indiferente. Insensível. Surda e muda. Fechada numa concha de egocentrismo feroz, que mais não é do que uma fortaleza de defesa. Até aqui, tudo bem. O pior é quando me armo até aos dentes e desejo vingança. Contra os outros ou contra mim. É raríssimo chegar a este nível. Felizmente.


Há quem diga que sou assim por causa do meu signo, meio homem, meio bicho, em luta constante para ver quem prevalece. Pois, culpa o desgraçado do signo!! É verdade!!! A culpa não existe!!! Pronto, chamo-lhe responsabilidade,


Estou a ouvir músicas que não ouvia há anos. O meu filho sacou da net a compilação da Alanis Morissete e ofereceu-me.


 É engraçado ver as emoções que sinto quando oiço estas musicas, algumas tão iguais ao que sentia, outras tão diferentes.. Mas sempre intensas.


 Não sei viver sem música. Não sei viver sem palavras. Para mim, elas não são ocas. Nem falsas. São testemunhos reais do que se sente. E se vive. Não são vãs. Mesmo quando proferidas sem nexo, sem sentido. Sem sentir. Mesmo quando nos agridem.


E aquelas que ficam assim, escritas, têm força de lei. Nem que seja pelo instante. Pela força com que se produzem. Mesmo que caiam em saco roto. Em poços sem fundo, como pedras que não têm direito à corrente do rio que as faça deslizar..


Sempre gostei de perder tempo a observar pedras. Passava o Verão a fazê-lo. A adivinhar-lhe as causas dos contornos, a erosão do vento. Perdia-me deleitada nos penhascos do Cabo Carvoeiro, a olhar e a tentar perceber o que era mais belo, se aquele mar indomável, se as pedras que o recebiam no seu colo sem sequer protestar pelo embate milenar.


Mas nunca percebi se tinham alma. Se a roda da Existência parava ali, ou se pairava por ali.


Só eu… A perder tempo com filosofias de trazer por casa.


Mas se gosto tanto de pedras que a Natureza produz e afaga, não suporto pessoas-pedra.


Agridem-me os sentidos. A pele, a alma, o olhar, o tudo e o nada que fui, nesta vida e noutras, no que sou e naquilo que ainda me espera.


Cada um tem a sua sensibilidade muito própria, e quem sou para a medir ou quantificar. Mas acredita que há pessoas-pedra.


Felizmente conheço poucas. Há pessoas que se mantêm inalteráveis, imunes ao correr da tempestade, cegas à chegada da bonança. Que conseguem na perfeição desviar o olhar e o coração quando algo de inesperado ou indesejável lhes salta ao caminho. E apesar de pensarem que avançam melhor do que os outros, parece-me que ficam sim especadas, imóveis, inúteis. Afinal, como as pedras. Mesmo que tenham a sua beleza, o seu interesse.


Houve alturas na vida em que me senti assim. Que nada me afectava, nada me beliscava. Permanecia inabalável no meu percurso, sem perceber que marcava passo. Com a máxima de que “não posso mudar o mundo”, nada fazia. Pelos outros. E embora permaneça uma egocêntrica feroz, nunca mais desviei os olhos e muito menos o coração.


Há quem me diga que sou um íman para os desgraçados e desvalidos da vida. Que tenho especial apetência para aquilo que não presta, e que todas as chatices dos outros me batem à porta. Não me importo, mesmo que o digam em forma de insulto.


E porque sou minúscula, pouco posso fazer alem de ouvir. Mas oiço. De ouvidos, coração e ombros bem despertos.


E nunca recusei uma mão estendida, seja para a apertar, seja para lhe por alguma coisa dentro. Às vezes, basta um pequeno toque. Uma pequena mas sincera atenção. E com esse pequeno toque, pode-se mudar a vida de alguém. Nem que seja por um instante.


 Não te estou a cantar a canção da boazinha, depois de ter contado a da coitadinha. Sou tão boazinha, coitadinha, mazinha como qualquer outro ser humano. Tudo depende das circunstâncias e da disposição do dia. Ou da viragem do vento. Ou apenas do facto de os olhos que estão defronte dos meus, chorarem ou sorrirem.


Mas uma coisa te garanto. Posso ter mil defeitos, tropeçar à mais leve rasteira, dançar de alegria sem a mínima razão. Podem chamar-me louca, excessiva. Mas nunca me irão chamar parda. Cinzenta. Indiferente. Surda e muda dentro do meu castelo de convicções, das minhas absolutas verdades, até porque não tenho nenhumas.


 E se o meu caminho para Deus demorar muito mais tempo, tenho a certeza de que Ele não se vai importar.


Pelo tempo que perco a estender a mão e a acolher outras.


Pelo tempo que passo a olhar para o sol nascente, ou para os prados que floriram mais cedo do que o costume.


Pela camisa que dispo, mesmo sabendo que terei sempre frio. E nem Deus nem o Diabo se irão importar com isso.


 Aposto que eles dão boas gargalhadas à minha pala. Com os meus esforços insanos para me debater. Mesmo quando não vale mesmo a pena. E um dia, em que Eles resolverem que já mereço algum descanso, concerteza unirei as minhas gargalhadas a milhões delas. Porque visto Lá de Cima, este mundo é mesmo hilariante..


Daqui a uns dias, vou ser operada. E se tudo correr bem, e eu acordar do raio da anestesia que me assusta mais que tudo (quem sabe se o meu espírito resolve aproveitar a baixa da guarda..), sei que vou nascer de novo, e que nova oportunidade me será dada.


De renascer. E nesse renascimento, vou tentar ser melhor. Principalmente para mim.


Embora isto te possa parecer uma anormalidade, vindo da boca de alguém que só olha o seu umbigo, até no chorrilho de palavras que debita, acredita que é a mais pura das verdades.


 Fiz de mim o saco de pancada de algumas pessoas, mas principalmente fui eu a minha maior inimiga. Pois bem, vou içar a bandeira branca. Não mais me magoarei.


E pronto. Mais uma catarse interior que te atirei para cima.


Não te vou prometer que será a última. Mas digo-te do fundinho de mim, que finalmente percebi.


Que não tens lugar para mim na tua vida, e embora isso me doa, até entendo.


 Não aceito, mas entendo.


Todas as vezes que nos cruzámos, fui eu a procurar-te. Com 2 excepções: quando nasci (nenhuma de nós pôde fugir a isso) e quando me mandaste buscar, antes da cena triste do tribunal.


De resto, fui sempre eu que me impus, quando fiz 18 anos, quando bati nos 30 e agora. Já sei onde estás.


E tu, embora não te aqueça nem arrefeça, sabes onde estou. Se te quiseres cruzar comigo algum dia, não te vou fechar os braços. Pelo contrário. Não está na minha natureza fazê-lo, e muito menos o faria contigo. Nunca fecho portas e passo a vida a abrir janelas. Abençoada claustrofobia!


Se alguma coisa nas minhas palavras te agrediu, ofendeu, entristeceu, se alguma coisa que disse mexeu com partes de ti que queres imóveis, desculpa. Se, ao contrário, nada mexeu contigo, também não te levo a mal.


 A táctica de se estar nas tintas, é porreira. Quando dói demais, também uso. Deixa marcas eternas, mas dá para seguir em frente com alguma paz podre de espírito.


Que não deixa de ser paz. E vale por isso.


Mas nunca, e isso magoou-me e quero que saibas, nunca pretendi uma rendição a meus pés. Que raio quererias dizer com isso, caramba? São uma arena de combate, estes nossos cruzamentos??


Enfim.. Ficarei na dúvida, sem que isso se torne num drama. Mais um.


Sabes, tou mesmo farta de dramas, frustrações, tragedias gregas de mau gosto..


Não vale mesmo a pena. Não te canso mais.


Vou dormir. Este dia foi difícil, poderia ter sido fantástico, mas paciência.


Graças a Deus, falta meia hora para terminar. Espero que tenha sido bom para ti, que tenhas conseguido curtir o teu dia de anos o melhor possível.


 Na volta, nem ligas a isso e achas um disparate.


 Opiniões.


Dá um beijo por mim na Raquel e no David.


 E aceita o abraço virtual que não deu para tornar real.



publicado por Fernanda às 09:11
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8 comentários:
De Anónimo a 19 de Fevereiro de 2006 às 14:32
Esta carta tocou-me bastante, tenho tb uma historia complicada com os meus pais, ou pra dizer melhor nem tenho relaçao, enfim.
Tb sonho mto, e sou exagerada no sentir, e parece que nunca o vou conseguir mudar. Encontro esperança de n sofrer com esta forma de ser, na desculpa que talvez seja da idade. Tenho 25 anos e embora a minha vida n seja perfeita é mto boa, além disso já alcancei mais paz de espirito do que imaginava á 5 ou 6 anos, alegro-me pk pelo menos vou evoluindo. Mas compreendo-te...há coisas mm dificeis de entender, pk é q o amor neles não é inato, não é espontaneo como o é para mim qd olho o meu filho...mágoas enfim, ironicamente sou mais feliz q qualquer um deles, e contrariei todos os julgamentos, todos os juizos de valor q fizeram sobre mim sairam furados, mas nem assim ganhei o amor deles. Evito falar nisto pk podem confundir a minha mágoa com uma mulher ainda mto jovem com crises de adolescencia por resolver, a realídade é q ja os compreendi melhor do q alguma vez me compreenderam a mim, talvez se fosse como eles tivesse a sua atençao, pois mas não sou e ainda bem, ainda bem q sinto as coisas, as flores, os campos, as brisas frescas, ainda bem q nasci diferente., por um lado sofri ate de lá sair com isso, pois n havia paz, eu n os entendia e eles a mim mto menos, mas agora q me libertei de opressoes, maus tratos...posso provar as doçuras da vida. Sinto magoa sim, mas tb mta pena por n verem a vida c outros olhos, so eles estao a perder...
Fernanda um beijo mto grande e bora pra frente q para tras n é caminho. :)Manefta
(http://manefta.blogs.sapo.pt)
(mailto:manefta@hotmail.com)


De Anónimo a 16 de Fevereiro de 2006 às 17:53
Amiga ainda bem que n/ lhe mandaste a carta fica nos teus arquivos um dia quando ela vier por inciativa dela então sim lê mas lê bem alto para ela sentir a dor que sentiste pela falta dela, nessa altura talvez já estajas curada e ela esteja bem corcunda pelo peso dos remorços de não ligar á filha. beijinhos adryka
(http://suspirar.blogspot.com)
(mailto:adry1111349@gmail.com)


De Anónimo a 16 de Fevereiro de 2006 às 13:08
Puxa de um cigarrinho... que isso passa!Carlos Tavares
(http://o-microbio.blogspot.com)
(mailto:carlos.roquegest@mail.telepac.pt)


De Anónimo a 16 de Fevereiro de 2006 às 09:18
Ai, amiga, quanta melancolia...isso vai passar, são só mais uns dias e vais ser uma nova mulher...beijos.Ana
</a>
(mailto:ana.so@hotmail.com)


De Anónimo a 15 de Fevereiro de 2006 às 17:41
São palavras sentidas, um abrir de alma, corajoso (mas iso já não me admira), palavras bem dirigidas. Tenho inveja do felizardo a quem são dirigidas.alexandre
(http://ascartasperdidas.blogspot.com)
(mailto:abentodesousa@hotmail.com)


De Anónimo a 15 de Fevereiro de 2006 às 17:34
Há dias assim...uns melhor que outros. Amanhã, será sem dúvida, muito melhor. Basta estarmos cá ;)aflores
(http://omeublog2004.blogs.sapo.pt)
(mailto:albertoflores1957@sapo.pt)


De Anónimo a 15 de Fevereiro de 2006 às 13:53
fernanda transparente! gosto muito de ti.lyra
</a>
(mailto:notasdelyra@gmail.com)


De Anónimo a 15 de Fevereiro de 2006 às 09:57
Ai, ai, coraçãozinho lindo. Quem não te ama não te merece Fernandinha. Xicoração grande e apertado.carlos
(http://carlosrlopes.blogs.sapo.pt)
(mailto:carlosrlopes@sapo.pt)


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