Porque viver, sobrevivendo, é uma questão de simplicidade...
Segunda-feira, 7 de Setembro de 2009
De Centauro a Sereia

 

Estou sentada de coração na mão…
Escolhi a pedra milenar mais lisa que a vista alcançou…
Lanço o olhar atrás de um voo que passa rasante .. são 2 gaivotas, apressadas, barulhentas, em comunhão plena com o vento e o mar…
 
Um arrepio lembra-me que não sou pedra, nem mar… sou ainda apenas gente.
De carne e osso, sangue quase gelado a correr nas veias…
 
Decido fechar os olhos para melhor ouvir o silêncio cantado pelo vai-vem eterno das ondas…
O bater do meu coração acompanha-o em perfeição, lembrando acordes de vivaldi já esquecido, mas outrora tão amado…
Como cheguei até aqui?
Tanto caminho corrido e arrastado de farpas nos pés… tantas páginas lidas, escritas e sentidas..
Tantos conselhos ocos de quem sabia mais do que eu…
De nada valeu…
Não sei ser Gente.
 
Lá longe, na terra que avisto sem saudade, sou meio bicho meio gente.
Só meio, por isso obrigada, não sei porque leis divinas de deuses descuidados…
Só meio, sempre dividida em facções guerreiras que se olham estranhamente, antes de se degladiarem inutilmente…
 
Esta pedra plana, milenar de corrosão quiçá imposta, esperava por mim?
Não sei nem me interessa.
Escolhi-a e nela me sento, enrolando os braços nos joelhos, numa tentativa fútil de me aquecer…
O roçar das gaivotas já vai longe e até o ondear do sal ecoa distante, mais distante… imperceptível por fim…
 
Deito-me na pedra. Já sem frio.
Sem direito ainda de ser apenas Alma, encerrando no meu peito o Espírito atormentado de sempre, sinto-me flutuar além da matéria, como se o meu corpo de abrisse num momento de amor e desejo…
E quando ganho coragem de abrir os olhos que hoje recusaram cascatas ridículas do mesmo sal,
abro os olhos e vejo que uma onda se levanta imponente, branca e macia e me envolve, puxando-me suavemente da pedra onde queria ficar…
 
Fiquei à espera da dor, da aflição de não poder respirar, da agonia de tudo o que deixei por fazer, amar e sentir…
 
Mas não.
 
Senti invadir-me uma Paz de aroma a algas e limão..
E percebi…
Não soube ser Gente nem Bicho…
 
Mas quem sabe, agora, saberei ser  Sereia….
 
 
 
 
 
 
 

 



publicado por Fernanda às 22:35
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3 comentários:
De carlos lopes a 11 de Setembro de 2009 às 19:46
Olá Fernandinha.
Lindo este "escrito", atravessado pela melancolia e banhando-se nas águas da memória.
Um xicoração grande para sereia Fernandinha.


De aflores a 23 de Setembro de 2009 às 08:34
E como sereia...o mar será todo teu :)
beijinhos


Tudo de bom;)


De Traquinasmother a 8 de Outubro de 2009 às 11:26
oh que bonito
.principalmente porque chove..e assim pelo menos fiquei com sabor a praia no PC..


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